Lembro-me que estava na turma de Naming quando o professor usou como exemplo a personagem Daenerys Targaryen para explicar o significados de certos nomes. Ele então perguntou para a turma: Quem aqui nunca assistiu Game of Thrones? A turma não era grande, mas somente eu e outra aluna levantamos a mão, meio constrangidos é claro. O professor deixou apenas uma recomendação: “Assistam! É muito, muito f*da”.

Senta que lá vem um tema  indispensável para o seu negócio: Storytelling

A Eone foi muito sábia ao conectar a história de Bradley Snyder a de seu inovador relógio. Tanto que em sua campanha de financiamento coletivo para lançar o produto, obteve 15 vezes mais do que o valor solicitado. Vale a pena conhecer mais sobre o processo da Bradley de entender melhor as dores do cliente e como foi todo o processo de prototipagem.

 

AmericanGirl – empoderamento aliado à diversão

 

Foi na procura de bonecas para dar de presente para suas sobrinhas que a Sra. Pleasant Rowland se deparou com a falta de opções interessantes. Só havia bonecas Barbie e outros bonecos com um apelo muito infantilizado. “Lá estava eu, integrante de uma geração que redefinia o papel da mulher na sociedade, e tendo de ver que nossas filhas ainda estavam brincando com bonecas que se limitavam ao sonho de ser uma adolescente popular ou de ser mãe”.

 

Em 1986, a Sra. Pleasant decidiu produzir e vender bonecas que representassem épocas e lugares distintos da história dos EUA. Há por exemplo a boneca Addy, que foge da sua condição de escrava e luta para manter sua família em 1864, e a boneca Samantha, que em 1904 não se permite que padrões impostos pela sociedade a impeçam de ajudar os mais necessitados. Você deve ter percebido que estas bonecas tem um forte discurso de empoderamento feminino.

Autor:

Mauro Rodrigues - Consultor em Inovação no Relacionamento com o Cliente

Idealizador do Fermento nos Negócios, gosto muito de ouvir histórias e refletir sobre seus aprendizados. Ao compreender o potencial do Storytelling para as empresas, resolvi escrever este artigo. SAIBA MAIS...

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A empreendedora, no entanto, não se limitou a simplesmente, a fazer uma linha de bonecas com roupas que representassem determinada época. O propósito sempre foi de criar uma verdadeira experiência de imersão histórica para as meninas, permitindo que elas aprendessem mais sobre mulheres que construíram o país. Mas o real o objetivo é de criar uma verdadeira conexão emocional entre as histórias destas bonecas e as meninas que brincam com elas. E neste ponto o Storytelling faz toda a diferença.

 

Cada boneca é acompanhada por dois livros muito bem produzidos que mostram sua realidade, seus sonhos e todos os desafios que uma mulher enfrenta durante seu crescimento. Também há aplicativos, jogos online e novas edições que expandem a história e o universo de cada boneca. Vale ressaltar que a cada ano é lançada uma boneca cuja história se passa na atualidade, permitindo uma identificação com o tempo presente também.

Expandindo a aplicação do Storytelling

 

Os exemplos e tudo que relatei pode dar a impressão de que o Storytelling se aplica apenas ao marketing e vendas. Entretanto, várias áreas na sua empresa podem se beneficiar da arte de contar histórias, como mostra alguns exemplos de Alexis Scobie.

 

- Design e desenvolvimento de produto: o potencial de vendas de uma história pode ser tão incrível que é capaz de influenciar diretamente o desenvolvimento de um produto. Alguns afirmam que Steve Jobs fez questão de que o iPod fosse pequeno o bastante para caber no bolso da sua calça. Isto porque ele sabia quão surpresa a plateia iria ficar durante a apresentação do produto quando, durante seu discurso, Jobs o tirasse do bolso.

- Controle de qualidade: indicadores são fundamentais para o monitoramento da qualidade da produção, mas podem parecer insuficientes para produzir o engajamento necessário. O que tem maior potencial de motivar uma equipe a corrigir uma falha recorrente: uma história impactante e bem contada de um cliente insatisfeito? Ou um gráfico com toda a frieza dos números mostrando que o padrão de qualidade pode melhorar?

 

- Relacionamento com o cliente: já vimos num artigo anterior como construir um perfil de cliente com base apenas em aspectos demográficos pode limitar a visão do seu negócio sobre quem realmente é o seu cliente. Com a definição de uma Persona e construção de uma história em torno dela, sua equipe vai ter uma visão muito mais clara de quem é seu cliente e como sua empresa pode agregar valor a ele.

 

- Planejamento Estratégico: a construção estratégia de cenários, como já vimos em nosso artigo, pode se tornar muito mais plausível com o uso do Storytelling. O senso de propósito que de uma história bem contada também pode fazer todos na empresa a enxergarem a “meta além da meta”.

 

- Treinamento e Gestão de pessoas: você percebeu quantas vezes nos exemplos anteriores usei a palavra “equipe”? Esta é uma das áreas que mais pode se beneficiar do Storytelling, considerando o seu potencial em comunicar relevância/propósito e gerar o estímulo necessário para determinada ação. Quanto ao treinamento, não é bem mais simples fazer com que uma pessoa que entrou na empresa entenda, por meio de histórias, qual o comportamento que se espera dela e a forma como empresa funciona. Muitos empresários se queixam de que os colaboradores não entendem a postura que devem adotar no trabalho. Por que não tornar tudo mais claro por meio do Storytelling?

 

Como construir ótimas histórias?

 

Conforme vimos anteriormente, contar histórias faz parte da forma como nos comunicamos. Elas ocorrem naturalmente. No entanto, contar histórias engajadoras e que produzam o resultado que você espera não é tão simples. E tudo começa com a definição de um objetivo. O que você espera obter com a história que você irá contar? Humanizar sua marca? Direcionar as pessoas para uma conduta que considera a ideal? Aqui é o seu ponto de partida.

 

O próximo passo é construir sua história de forma a gerar o impacto emocional desejado. Neste artigo da HBR, Monarth apresenta a pirâmide de Freytag, uma estrutura dramática que está presente em muitas histórias que você já escutou, visto que ela vem sendo usada há milênios.

Depois disso ainda levei um tempo para conferir a série, mas logo pude ver que, realmente, era incrível. E uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a forma como o espectador era apresentado à história e ao universo da série (nada de spoilers, eu prometo).

 

Nos primeiros episódios da série, você tem a sensação de que pegou o bonde andando, pois a história já vai se desenrolando sem cerimônias. Não existe um momento “Era uma vez” em que você é apresentado a todo o universo e às pessoas que fazem parte dele. O espectador é apresentado a tudo o que aconteceu até aquele momento por meio de histórias contadas em cada episódio. Ficamos sabendo que o antigo rei, os 7 reinos, os White Walkers, alianças e traições por meio de relatos contados pelos próprios personagens.

 

Geralmente séries e filmes recorrem ao recurso conhecido como flashback, em que uma história anterior começa a ser contada e, de repente, outros personagens entram em cena (e geralmente a cena assume um tom meio esbranquiçado para diferenciá-la do tempo presente) e nós testemunhamos tudo o que aconteceu. Game of Thrones não tem nada disso. Só conhecemos mais sobre eventos passados por meio das histórias contadas pelos personagens, com toda a carga emocional que eles geralmente trazem para o momento. Para mim, algumas das melhores partes da série acontecem exatamente nestes momentos, em que histórias são partilhadas; e acredito que são umas das razões do enorme sucesso da série. Elas ajudam a criar uma conexão emocional com os personagens e são uma prova do poder do Storytelling.

 

Storytelling e seu potencial estratégico

 

Storytelling pode ser traduzido como o ato de contar histórias e é um termo que vem sendo cada vez mais usado no mundo nos negócios. Acredito que a principal razão para isto deve-se a um simples fato de que é cada vez mais difícil captar a atenção das pessoas. Com tanto acesso a informação, a diferentes formas de passar o tempo (e aqui os smartphones são um grande aliado) é difícil alguma coisa reter nossa atenção. Diante disso, o poder do Storytelling pode ser um recurso valioso.

 

Contamos histórias desde que aprendemos a nos comunicar e nem precisamos de pesquisas ou dados que comprovem sua eficácia. Afinal, o que é mais eficaz ao instruir as crianças que não se deve mentir? Dar uma lição sobre valores e relembrá-las de que é um comportamento errado ou contar histórias como a do Pinóquio ou do Menino e o Lobo (aquela clássica em que o menino sai gritando que viu um lobo só para enganar todo o vilarejo)? Será que alguns de nossos políticos nunca ouviram histórias assim quando eram crianças?

 

Rafael Rez mostra que o Storytelling produz em nossas mentes:

 

  • A projeção de nossas próprias ideias e imagens com base no que estamos ouvindo, resultado de um processo chamado Acoplamento Neural

 

  • A liberação de dopamina, quando a história consegue despertar emoções em quem está ouvindo. Quanto mais fortes forem esta liberação e as emoções provocadas, maior a possibilidade da história (e sua mensagem) ser lembrada.

 

  • Provoca o desejo de compartilhamento (quando ouvimos uma história incrível, não temos vontade recomendá-la e partilhá-la com os demais?).

 

Ora, qual empresa não gostaria de ser lembrada pelo seu cliente e despertar emoções positivas que gerem maior engajamento com a marca? Não é sem razão que o Storytelling vem ganhando cada vez mais força em estratégias de marketing. Quero apresentar dois exemplos bem-sucedidos que talvez você não conheça e que demonstram melhor este potencial.

 

Relógio Bradley- inovação aliada a uma história impactante

 

Para os que têm alguma deficiência visual, checar as horas é uma tarefa complicada. Praticamente todos os modelos de relógios são pouco intuitivos e aqueles que “falam que horas são" podem ser constrangedores em momentos que exigem discrição. Sem mencionar que os modelos costumam ser muito feios, talvez porque haja uma ilusão de que pessoas cegas não se interessam pela aparência dos acessórios que estão usando. Foi percebendo tudo isso que a Eone criou um relógio direcionado para este público e optou por um nome carregado de uma história muito interessante.

Lições que o agente secreto 007 pode trazer para sua empresa - era Craig (2007 a 2015)
Gamificação é modinha ou uma poderosa ferramenta para os negócios

O relógio foi batizado em homenagem ao ex-militar Bradley Snyder, que teve os olhos feridos gravemente na tentativa de desativar uma bomba. Apesar de ter passado por várias cirurgias, não conseguiu recuperar a visão. Esta limitação o fez refletir sobre o que poderia fazer de agora em diante, já que não seria mais possível seguir com seu trabalho. Bradley decidiu que iria ganhar uma medalha de ouro nas paraolimpíadas. Seu porte físico não era do mesmo nível dos demais atletas, mas com muita dedicação, conseguiu a sonhada medalha e encontrou um novo sentido para sua vida.

Esta estrutura é a base para famosa Jornada do Herói, que você pode conhecer neste infográfico. Filmes como Star Wars, O Rei Leão, A Noviça Rebelde e praticamente todos os filmes sobre super-heróis se utilizam desta jornada. Nick Resse sugere que você defina estes aspectos para construir sua própria jornada/história de superação:

 

  • Identidade: Quem era você ao começar sua jornada?

  • Desafiando o “Status Quo”: O que você queria mudar na sua situação, no seu ambiente ou em si mesmo?

  • Luta: Contra o que você lutou para levar adiante a mudança que você queria?

  • Insight (visão): Qual a ferramenta ou o conhecimento que você adquiriu para levar superar o desafio?

  • Resolução: Como você está em relação ao desafio? Quem é você agora?

 

Como pode ver, histórias impactantes são sempre sobre pessoas. Mesmo que você pretenda contar a história de um produto ou da sua empresa, foque na sua jornada empreendedora ou na forma como sua empresa transforma a vida das pessoas. Quando sugiro isto, às vezes escuto: “Mas a minha história não é tão interessante assim”. Como podemos comprovar no nosso quadro Vim, Vi e Tô na Luta, é difícil que um empreendedor no Brasil não tenha uma boa história, principalmente de superação, para contar.

 

Entretanto, caso você não se sinta a vontade para partilhar sua história ou se o seu negócio ainda não gerou o impacto desejado, você pode apropriar-se de outras histórias, a exemplo do que a Eone fez com o Bradley. Esta apropriação, contudo, deve fazer sentido para o seu público, de modo que não soe “forçada”. Vimos que a história de superação de Bradley Snyder tem muito a ver com os desafios diários de uma pessoa com deficiência visual precisa contornar, permitindo ainda uma conexão com a história da marca em fabricar o relógio ideal para este público.

 

É quase impossível, ao tratar sobre Storytelling, não se lembrar da propaganda enganosa dos picolés Dilleto. Sua história tem que ser verdadeira. Não apenas por uma questão de valores, mas pelo fato de uma história real transmitir muito mais credibilidade ao seu público. Tanto que a maior parte das bonecas AmericanGirl, apesar de se basearem em personagens fictícios, passam por uma extensa pesquisa sobre o período histórico em que se encontram e como era a vida das mulheres naquela época. Este trabalho é tão minucioso que leva de 3 a 5 anos para conceber a história de uma boneca.

 

Chuck Porter, verdadeira referência na área da publicidade e da criatividade, defende que “independente do canal, da mídia ou da tecnologia utilizada, a narrativa e a história são os elementos que sempre irão prevalecer”. Em um próximo artigo irei trazer exemplos de como integrar o Storytelling à experiência do seu cliente. Se inscreva na nossa newsletter para saber quando o artigo irá ao ar e aproveite para conhecer um pouco sobre a história do Fermento nos Negócios.

Artigo fermentado em 18/11/2017

Daenerys Targaryen - uma das personangens principais de Game of Thrones
O fundador da marca Eone, Hyungsoo Kim, junto com Bradley Snyder
Algumas das bonecas históricas AmericanGirl
Steve Jobs apresentando a 1ª versão do iPod
A pirâmide de Freytag - estrutura dramática usada em muitas histórias