Aperte “Start” – Aplicando elementos de jogos para engajar sua equipe

Apresentamos os elementos mais usados e 5 games que irão inspirar seu projeto de gamificação

O último relatório da Internet Trends mostrou que 1/3 da população mundial joga algum tipo de game. São 2,6 bilhões de pessoas que costumam jogar alguma coisa no celular/tablet, computador ou em consoles como Playstation e X-Box. Se alguns podem pensar que isto é coisa de criança, o relatório mostra que a idade média dos jogadores nos EUA é de 35 anos. No Brasil esta média não deve variar muito.

 

Esta realidade confirma o poder de engajamento que os jogos possuem em nossa vida, tema que já abordei no artigo "Gamificação: modinha ou poderosa ferramenta de engajamento?". Nele vimos porque os jogos nos fascinam tanto e como é possível aplicar seus conceitos nos negócios, com enfoque especial no engajamento dos colaboradores. Se você ainda não o leu, recomendo que o faça antes de prosseguir com a leitura deste artigo, pois irei me aprofundar em como colocar algumas daquelas ideias em prática.

 

Deixei bastante claro o quanto projetos de gamificação precisam focar no aspecto diversão, o elemento principal que torna os jogos tão fascinantes. Sem isso você não irá conseguir que as pessoas tenham interesse no jogo que está construindo. Mas que tipo de diversão estamos falando? Kevin Werbach cita alguns exemplos:

Quais coisas são divertidas? - encontrando o caminho para o seu projeto de gamificação

Pense no seu jogo favorito (eletrônico ou não) e garanto que pelo menos um destes elementos está presente. Tenho parentes distantes que, por exemplo, adoram jogar Canastra; e é visível a presença de elementos – como o gostinho de vitória e de superar desafios – que façam com que se reúnam e joguem sempre que possível.

 

Para que seu projeto de gamificação possa engajar seus colaboradores é necessário que você se enxergue no papel de um designer de games (inclusive, não irei mais usar o termo “funcionários” ou “colaboradores” de agora em diante. Usarei apenas o termo “jogadores”, ok?). E toda pessoa responsável por desenhar um jogo enfrenta um desafio: como fazer com que um jogador continue jogando? Como fazer com que ele continue se divertindo e engajado com o jogo?

 

Escolhendo os elementos que irão manter seus jogadores engajados

 

É possível identificar em jogos alguns elementos em comum que fazem com que uma pessoa jogue e continue jogando. Werbach e Hunter os dividem em três grupos: Dinâmicas, Mecânicas e Componentes. A forma como os representam é a de uma pirâmide, semelhante à usada na divisão dos níveis estratégico, tático e operacional de uma empresa. Usando esta analogia, estes grupos seriam divididos assim:

A pirâmide de Elementos de gamificação

Vamos entender os elementos presentes em cada segmento desta pirâmide, começando pelo topo (estratégico):

 

Dinâmicas

Pode ser considerada como a estrutura implícita que faz com que a experiência de jogo seja coerente e siga padrões regulares. É como se fosse um guia de boas práticas dos elementos; e não regras obrigatórias. Ela inclui os seguintes pontos:

 

  • Restrições (à liberdade do jogador)

  • Emoções (que ajudarão no engajamento e farão com que as pessoas joguem cada vez mais)

  • Narrativa (pode ser implícita ou explícita) – É a estrutura que torna todo o jogo coerente, juntando todas as peças. Sem narrativa você pode correr o risco das pessoas não se identificarem com nada que está ali.

  • Progresso

  • Relações – com parceiros, companheiros de times, oponentes.

 

Mecânicas

São os elementos que movem o jogo adiante. É a parte tática do seu jogo que possui vários elementos, dentre os quais:

 

  • Desafios

  • Sorte - o “rolar de dados” dentro de um jogo.

  • Competição

  • Cooperação

  • Feedback – que é muito importante

  • Aquisição de recursos –para conseguir progredir no jogo.

  • Recompensas

  • Transações - vender e comprar dentro do jogo

  • Turnos - quando é a vez de cada jogador

  • Condições para a vitória

 

Componentes

São os elementos que fazem os demais (Dinâmicas e Mecânicas) funcionar. Isso inclui:

 

  • Conquistas

  • Avatares

  • Troféus ou Emblemas (badges)

  • Lutas com chefões (oponentes de maior dificuldade)

  • Itens coletáveis

  • Conteúdo desbloqueável

  • Possibilidade de doar algo: pode parecer divertido para os participantes

  • Pontos

  • Rankings ou qualificação (leaderboards)

  • Missões (quests)

 

Muitos projetos de gamificação são criticados por focarem basicamente em três componentes: Pontos, Troféus e Rankings (em inglês, formam a tríade PBL – Points, Badges e Leaderboards). Como avimos acima, estes elementos fazem parte do operacional de um jogo. Sem uma estratégia que sustente a sua aplicação, a chance de fracasso é muito alta.

 

Vejamos o elemento Ranking/Qualificação por exemplo. Ele tende a ser uma ótima ferramenta de feedback, mostrando como está o desempenho do jogador em comparação aos demais participantes, o que também pode servir de estímulo para que ele deseje melhorar sua performance. No entanto, também pode desestimular os jogadores e reduzir o engajamento. Um participante, ao perceber que sua posição no ranking está muito longe dos líderes, pode se sentir desestimulado a continuar no jogo; e no ambiente empresarial isto pode levar a um baixo nível de motivação com o trabalho.

 

Pontos e troféus também são interessantes, mas tampouco são elementos que despertam o desejo de jogar e continuar jogando. Você não precisa aplicar em seu jogo todas as dinâmicas, mecânicas que apresentei anteriormente. Sua maior preocupação deve ser a de moldar um jogo que seja adequado à realidade do seu negócio e que consiga engajar seus jogadores e atingir seus objetivos.

 

5 jogos para empreendedores que irão inspirar seus projetos de gamificação

 

Empresários em geral adoram casos de sucesso, principalmente quando se veem frente a um projeto inovador que pode transformar sua empresa. Acredito que se sentem mais reconfortados em levar adiante um projeto que já trouxe resultados para outro negócio. Entendo perfeitamente esta posição, mas agir desta forma é trilhar um caminho já percorrido, o que pode impedi-lo de inovar realmente. Por isso, creio que seja mais válido apresentar jogos que trazem conceitos e ideias muito interessantes para seu projeto de gamificação.

 

Resolvi focar em jogos eletrônicos que podem ser desconhecidos para você, mas trazem ideias muito válidas para seu projeto. Sem mencionar que têm uma duração muito curta (afinal o tempo é o recurso mais escasso e valioso de um empreendedor) e são dublados ou legendados em português.

Gamificação - Como Transistor favorece a experimentação ao penalizar o jogador de uma forma inovadora

Transistor

 

Disponível para: PC, iPhone/iPad e PlayStation 4

 

Dificuldade: Média

 

Duração: 7 horas ou mais

 

Merece sua atenção porque: favorece a experimentação ao penalizar as “derrotas” de uma forma inovadora

 

Elementos em que se destaca: Narrativa, Restrições, Emoções, Aquisição de recursos e Lutas com chefões.

 

Quase todo jogo eletrônico pune o jogador que é derrotado – morre no jogo – com o retorno a algum ponto anterior (começo da fase ou um ponto de checagem). Neste jogo se o jogador sofre muitos danos ele perde uma de suas habilidades, tendo de se virar com as que sobraram. E se não bastasse isso, a habilidade não é recuperada assim que se derrota o inimigo, mas apenas em pontos específicos espalhados no jogo e depois que o jogador progrediu mais na história.

 

A princípio isto seria um motivo de desânimo, mas o jogo fornece várias habilidades para você escolher nos quatro botões de ataque do seu controle (joystick). Também é possível combinar habilidades que resultam em ataques diferentes e bônus para o jogador. Desta forma, quando um jogador perde uma habilidade ele é forçado, temporariamente, a experimentar as demais disponíveis que podem resultar em ataques que ele nem imaginava ser possível e que pode até adaptar-se melhor ao seu estilo de jogo, que tem uma fina combinação de estratégia e ação. E vale mencionar que o jogo e belíssimo e tem uma forma muito interessante de contar sua história.

 

Pergunte-se: Como não deixar que os jogadores fiquem “acomodados” em relação aos artifícios que já tem familiaridade no jogo, incentivando que explorem outros recursos e soluções?

Gamificação - como Mark of the Ninja torna acessível um gênero tão complexo quanto o stealth

Mark of The Ninja

 

Disponível para: PC e Xbox 360

 

Dificuldade: Média

 

Duração: 6 horas ou mais

 

Elementos em que se destaca: Progresso, Conteúdo desbloqueável, Feedback, Pontos (de forma relevante) e Condições para vitória.

 

Merece sua atenção porque: torna acessível um gênero reconhecido por sua complexidade, usando de uma perspectiva 2-D inovadora

 

Neste jogo você é um ninja que pode agir furtivamente – andando nas sombras e sem deixar vestígios da sua presença – ou assassinar quem estiver no seu caminho. Apesar de permitir esta liberdade ao jogador, o jogo premia quem aposta na furtividade, concedendo mais pontos por atividades como não ativar alarmes e não matar nenhum inimigo. Estes pontos permitem adquirir novas habilidades e itens que podem ser muito úteis no decorrer do jogo, mas que não são necessariamente essenciais.

 

Vale notar que o jogo adotou um aspecto visual muito inteligente que permitiu ser muito fácil entender quando um inimigo percebe sua presença ou não. Uma verdadeira inovação para um jogo 2-D.

 

Pergunte-se: Como posso incentivar os jogadores a assumirem determinado comportamento sem recorrer a punições ou restrições a forma que estão jogando?

Gamificação - Como Helldivers incentiva a cooperação entre os jogadores

Helldivers

 

Disponível para: PC, PlayStation 3, PlayStation 4 e PlayStation Vita

 

Dificuldade: Variável

 

Duração: Variável (cada partida dura em torno de 15 minutos)

 

Elementos em que se destaca: Relações, Cooperação, Conteúdo desbloqueável, Conquistas, Possibilidade de doar algo e Missões.

 

Merece sua atenção porque: incentiva que pessoas, que provavelmente nunca se viram, a cooperem para conseguir a vitória

 

Consegue imaginar quatro pessoas que nunca se viram antes tendo de cooperar para conseguir cumprir todas as missões em planeta hostil? Bem vindo a Helldivers, onde você é um soldado com opções limitadas de recursos e armas que você pode usar em uma partida; o que incentiva, mas não obriga, os jogadores a diferenciarem seu arsenal de forma tática. Se o seu personagem morre, ele só pode se revivido por outro.

 

Uma característica interessante é a de que todos os personagens tem de dividir a mesma tela, o que exige que até a movimentação pelas fases seja estratégica. Sem falar que seus aliados (os demais jogadores) podem ser mortos pela imprecisão dos seus tiros, o que acontece com certa frequência. É um daqueles jogos em que é possível jogar sozinho, mas a experiência fica muito mais divertida com outros jogadores.

 

Pergunte-se: Como posso incentivar que os jogadores cooperem entre si sem fazer disto uma obrigação?

Gamificação - como Cript of the Necrodancer torna sua dificuldade menos punitiva

Cript of the Necrodancer

 

Disponível para: PC, iPhone/iPad, PlayStation 4, PlayStation Vita e Xbox One

 

Dificuldade: Alta

 

Duração: 7 horas ou mais

 

Elementos em que se destaca: Restrições, Progresso, Aquisição de Recursos, Transações e Conteúdo desbloqueável.

 

Merece sua atenção porque: prepara os jogadores para novos desafios em uma área especial que estimula a tentativa e erro.

 

Esse jogo combina elementos de jogos de ritmo (que precisa fazer uma certa combinação no momento em que ela aparece na tela, como jogos de dança e com instrumentos musicais) e jogos de aventura. Seu personagem apenas se move ou enfrenta inimigos quando você faz aperta os botões no ritmo da trilha sonora.

 

Como se não bastasse, cada inimigo tem um padrão de ataque diferente e conforme você avança no jogo aparecem novos inimigos mais difíceis. Quando você está jogando e aparece um inimigo que você nunca viu antes, prepare-se para morrer e começar a fase de novo. Uma forma de o jogo balancear esta dificuldade é permitir que você, em um “saguão” fora das fases e gastando os diamantes que você adquiriu antes de morrer, treine com os novos inimigos e até com diferentes tipos de armas. Assim você pode entender como eles atacam e descobrir a melhor forma de derrota-los.

 

Pergunte-se: Como posso preparar os jogadores para enfrentar os desafios que enfrentarão nas próximas etapas sem deixar que eles desanimem com o nível de dificuldade?

Gamificação - Como Journey deixa vários elementos de jogos mais comuns de lado e constroe uma experiência única

Journey

 

Disponível para: PlayStation 3 e PlayStation 4

 

Dificuldade: Baixa

 

Duração: entre 2 ou 3 horas

 

Merece sua atenção porque: deixa de lado vários elementos comuns de jogos para criar uma experiência única.

 

Elementos em que se destaca: Narrativa e Emoções. 

 

Você deve lembrar como mencionei que aquela pirâmide de elementos presentes em jogos era opcional. Este jogo é um perfeito exemplo disso, pois não há pontos, guias, e vários outros elementos. Você começa o jogo sem nem entender o que está fazendo ali. Sabe apenas que deve seguir até a luz no topo de uma montanha – a prova de que todo jogo tem um objetivo.

 

Journey (jornada, em inglês) é um jogo que desafia várias conceitos e ideias que se tem sobre jogos eletrônicos. Por exemplo: não há um diálogo sequer durante toda a jornada. O que temos aqui é uma experiência incrível em que a arte visual e sonora do jogo fazem com que o jogador se sinta totalmente imerso no jogo e maravilhado com tudo que está acontecendo. É difícil até mesmo descrever o jogo, pois cada um o percebe de uma forma diferente e tira suas próprias conclusões quando tudo acaba. Uma verdadeira obra de arte.

 

Pergunte-se: Preciso me ater aos elementos tradicionais de um jogo para criar a experiência que preciso para engajar minha equipe?

Mas, afinal, posso apertar o botão “start” na minha empresa?

 

A gamificação pode ser aplicada a outras áreas da empresa que não sejam gestão de pessoas e de processos. Relacionamento com clientes e marketing são algumas das áreas que também podem se beneficiar. Entretanto, é sempre importante avaliar se os resultados que você deseja obter e forma que pretende alcança-los são compatíveis com a gamificação, o que pode ser feito a partir de 4 perguntas:

 

1 – De onde você pode extrair valor ao encorajar determinado comportamento?

 

2 – As atividades-chave são interessantes o bastante?

 

3 – O comportamento desejado pode ser moldado por modelos quantitativos (cálculos matemáticos)?

 

4 – O projeto de gamificação pode evitar atrito com outras estruturas motivacionais?

No próximo artigo sobre este tema iremos esclarecer algumas destas questões ao falarmos sobre a construção da Jornada do Jogador. Se você deseja auxílio quanto à aplicabilidade da gamificação na sua empresa pode contar com o nosso Fermento. Para saber mais sobre o tema e conhecer quais os elementos mais aplicados pelas empresas, recomendo a pesquisa conduzida por Amanda Costa. Consegue lembrar de outros jogos também trazem ótimas ideias para empreendedores neste tema? Não deixe de contribuir nos comentários abaixo.

Artigo fermentado em 29/08/2017

Autor:

Mauro Rodrigues - Consultor em Inovação no Relacionamento com o Cliente

Idealizador do Fermento nos Negócios, sou fascinado por jogos, apesar de jogar com pouca frequência. Sempre busco aplicar a gamificação em projetos de consultoria que envolvam o engajamento dos colaboradores. SAIBA MAIS...

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