Analisando risco e retorno

A virada de ano é o período ideal para ver como foi o ano que passou e traçar planos futuros, ainda mais se você tem um negócio próprio. Antes havíamos abordado sobre a importância de estabelecer metas realmente eficazes, agora o momento é de focarmos nos investimentos que você pretende realizar.

 

Observo que muitos empresários têm grande aversão a riscos, principalmente neste período de “vacas magras” em que a recuperação econômica vem a passos lentos. Qualquer investimento que pareça arriscado é um motivo para torcerem o nariz e responderem: “melhor deixar para outro momento”. O que poucos empresários avaliam é a quantidade de oportunidades perdidas por adiarem estes investimentos.

 

Sempre que se avalia o risco de um investimento, é preciso analisar também o retorno. Vejamos este exemplo de Paul Pietersma, mostrando possíveis investimentos que uma empresa está deslumbrando.

Gráfico e análise de risco e retorno

Onde a empresa deve investir? Ora, sempre buscamos investimentos com o melhor retorno e o menor risco possível. Assim, no caso desta empresa exemplo, a terceirização e a oportunidade de conquistar o mercado internacional são as alternativas mais promissoras. Se empresa estiver disposta a correr um risco ainda maior, o desenvolvimento do produto B pode trazer um grande retorno.

 

E se fizéssemos uma análise de quantos recursos cada opção de investimento irá exigir? Não me limito apenas a recursos financeiros. Tempo investido, mão-de-obra, equipamentos, entre outros podem ser considerados em cada opção de investimentos. Ainda nos limitando ao nosso gráfico anterior, vamos considerar que quanto mais recursos um investimento exigir, maior será a “bolinha” no gráfico que o representa. Assim, nosso gráfico pode ganhar a seguinte forma:

Análise de risco e retorno somada ao valor de investimento

Seu investimento permaneceria nas mesmas áreas após esta releitura? É preciso ter uma percepção apurada no momento de definir estes recursos, pois na forma que estão dispostos no gráfico os investimentos não se encontram inter-relacionados. Por exemplo, os recursos usados no desenvolvimento de um comércio eletrônico podem ser aproveitados para a conquista de novos mercados no exterior. O mesmo pode acontecer na terceirização e na profissionalização da gestão de compras. Busque fazer estas correlações ao construir seu modelo.

 

É provável que você esteja se perguntando: mas como construo um gráfico deste para o meu negócio? Ora, você pode fazê-lo até no verso de um guardanapo com seus sócios, gerentes ou mesmo sozinho. Garanto que você estaria a frente de muitos empresários que sequer consideram estes pontos ao planejarem seus investimentos. O problema é que você poderia se deixar levar por previsões pouco realistas ou mesmo um otimismo/pessimismo exagerado. Quanto menos informações uma pessoa possui para a tomada de decisão, maior é a probabilidade desta decisão ser afetada pelas emoções.

 

Então preciso de uma análise completa sobre o meu negócio, incluindo pesquisas de mercado e cálculos sobre retorno de investimentos (ROI)? Veja, esta seria a situação ideal. Porém sabemos que pequenas empresas nem sempre tem acesso a este tipo de inteligência estratégica. Desta forma, pretendo apresentar aqui formas simplificadas, mas eficientes, de como avaliar riscos e retornos de seus investimentos.

 

Avaliando riscos

 

Realizar investimentos implica em incorrer em riscos. E, pelo menos no que diz respeito ao planejamento empresarial, não se pode pensar que quanto maior o retorno, maior o risco. É necessária uma análise mais apurada que envolve 3 passos:

 

  1. Identificar os riscos

  2. Avaliar cada um e destacar os mais relevantes

  3. Pensar em estratégias de resposta para os riscos mais relevantes

 

Identificar riscos é pensar em tudo o que pode fazer aquele investimento dar errado. Não tenha receio de parecer pessimista aqui, pois quanto mais riscos forem identificados, melhor. Vamos selecionar um daqueles investimentos no nosso gráfico anterior: lançamento de um novo produto. Podemos pensar em uma série de riscos, por exemplo:

 

  • Baixa aceitação do público-alvo

  • Falha na precificação do produto

  • Padrão de qualidade abaixo do padrão da marca

 

Levantados os riscos, é o momento de pensar nas possíveis causas e efeitos relacionados a cada um. Seguindo com nossos exemplos:

Análise de risco - exemplo de baixa aceitação de mercado
Análise de risco - exemplo de falha de precificação
Análise de risco - exemplo de baixo padrão de qualidade

Veja como os riscos começam a ficar cada vez mais “realistas” quando abordados desta forma. O próximo passo é o de pensar em estratégias para contorná-los, certo? Calma, ainda precisamos analisar a probabilidade de cada risco ocorrer. Digamos que sua empresa costuma ser muito boa no marketing e sabe comunicar muito bem o valor de seus produtos. A probabilidade do primeiro risco (baixa aceitação) acontecer seria tão baixa que não compensaria desenvolver estratégias para contorná-la. Como Finocchio Júnior recomenda, para cada risco é preciso pensar na probabilidade dele ocorrer e no impacto negativo que ele pode trazer. Voltemos então aos nossos exemplos.

Análise de risco aprimorada - exemplo de baixa aceitação de mercado
Análise de risco aprimorada - exemplo de falha na precificação
Análise de risco aprimorada - exemplo de baixo padrão de qualidade

Você pode observar que coloquei um número ao lado probabilidade. Isso porque estabeleci uma classificação de 1 a 10 para cada probabilidade e impacto, sendo “1” muito baixo e “10” muito alto. Isso facilita na identificação de quais riscos são os mais críticos e merecem ser observados. Se multiplicarmos o nível probabilidade pelo de impacto negativo, iremos obter os seguintes valores para cada risco.

 

Risco: Baixa aceitação do público-alvo

Probabilidade x Impacto: 14

 

Risco: Falha na precificação do produto

Probabilidade x Impacto: 42

 

Risco: Padrão de qualidade abaixo do padrão da marca

Probabilidade x Impacto: 27

 

Assim, podemos ver que o risco de falha na precificação é mais crítico que os demais e que se fôssemos estabelecer um curso de ação para lidar com estes riscos, ele deveria ser o prioritário. E neste caso uma pesquisa de preço praticados no mercado e um levantamento mais apurado dos custos que envolvem o desenvolvimento e a fabricação deste produto podem ajudar a reduzi-lo.

 

Uma das maiores falhas ao optar por novos projetos e investimentos é subestimar os riscos envolvidos. Por isso, vale a pena seguir não apenas esta estrutura que recomendei aqui, mas contar com as opiniões e o conhecimento de outras pessoas da sua equipe que possam ser envolvidas no planejamento estratégico. Múltiplas perspectivas podem fazer uma grande diferença nesta etapa.

 

Estimando o retorno

 

Agora que os riscos foram devidamente avaliados, é o momento de medir o retorno que seus investimentos futuros podem lhe trazer. Para isso, recomendo fazer esta avaliação a partir do Retorno sobre o Capital Investido (ROIC), que é calculado da seguinte forma.

Resumidamente, é o retorno obtido divido pelo investimento realizado. Seus dados contábeis podem ajudá-lo a chegar neste montante, por isso irei simplificar no que é conhecido por Árvore ROIC (ROIC Tree).

Exemplo de Árvore ROIC - Retorno sobre o Capital Investido

Aprofundar-se nesta estrutura implica em ir além dos cálculos financeiros e enxergar as operações da sua empresa como um todo. Desta forma você pode visualizar em quais áreas sua empresa está gerando maior valor. São estas que devem ser o foco de seus investimentos, se você pretende obter maior retorno com o menor investimento possível.

 

Vamos tomar por exemplo loja de roupas femininas que esteja pensando em vender pela Internet. Muito provavelmente sua receita com vendas irá aumentar, mas será que a ponto do investimento valer a pena? Provavelmente será preciso adaptar ou reformular o website da empresa, além de aumentar os custos com marketing digital e estoques. Talvez seja necessário contratar novos colaboradores para cuidar destas áreas e até mesmo uma consultoria para cuidar de todo o projeto. Vejamos uma projeção de como ficaria a árvore ROIC desta empresa após a decisão por este investimento.

Exempo de Árvore ROIC de um investimento em vendas online

Então, vale a pena investir no comércio online? Vimos um aumento positivo no ROIC, mas tudo depende dos riscos que esta empreitada pode trazer e das demais opções de investimento que a empresa pode realizar. Talvez seja melhor fazer alguma parceria para vender em outro ponto ou quem sabe investir no treinamento dos vendedores. Uma análise de risco e retorno irá indicar qual a melhor opção.

 

Como já havia mencionado no começo do artigo, diferentes opções de investimentos podem estar inter-relacionadas, de modo que o investimento em uma delas pode diminuir o investimento em outra, como se meio caminho já houvesse sido percorrido. Investir em uma loja virtual, por exemplo, pode diminuir os investimentos em exportação, caso o canal de venda para outros países seja o virtual.

 

Deseja construir uma árvore ROIC melhor adaptada a sua realidade? Recomendo seguir as seguintes etapas:

 

1 – Comece pela estrutura apresentada na figura anterior (exemplo de Árvore ROIC)

2 – Divida as variáveis mais gerais em componentes específicos

3 – Escolha quais ramificações da árvore tem maior peso para o seu negócio. Para isso é importante pensar em:

  • Quais os fatores de custo principais?

  • Quais as áreas mais estratégicas?

  • Quais dados são mais passíveis de mudança?

4 – Desenvolva os ramos mais importantes

5 – Defina indicadores-chave que possam ser aplicadas a estes ramos estratégicos.

 

Então, tenho tudo que preciso para avaliar minhas possibilidades de investimento?

 

Considere que trouxe aqui uma visão financeira e operacional para avaliar seus investimentos. Outros fatores podem entrar em jogo e, naturalmente, ter um peso importante na sua decisão. Voltemos ao nosso exemplo de lançamento de um novo produto. Digamos que este lançamento tornará sua empresa conhecida para um novo tipo de clientela, projetando sua marca para um novo mercado. Esta visibilidade deve ser considerada na sua avaliação de investimentos.

 

Um exemplo clássico é o da companhia aérea Southwest, que logo em seus primeiros anos de atividade teve de lidar com uma importante decisão. Um dos cofundadores da empresa saiu para fundar sua própria companhia aérea, a Muse Air, que contava com aviões mais sofisticados e confortáveis. Pesquisas indicavam que os clientes preferiam esses aviões aos modelos mais simplórios da Southwest. A pressão foi grande para que a empresa modernizasse sua frota, que se limitava a um modelo de avião, para enfrentar esse concorrente.

Muse Air e sua competição com a Southwest Airlines

O fundador da Southwest, Herb Kelleher, conta que, diante dessa situação crítica, pensou assim: “Se comprarmos esses aviões novos, e admito que são bonitos e preferidos pelos clientes, vamos ter que treinar nossos pilotos a voar em duas aeronaves diferentes e treinar nossos mecânicos a lidar com duas aeronaves diferentes. Isso vai aumentar nosso custo e vamos ter que cobrar mais dos nossos clientes. Não vamos fazer isso, pois não é esse o propósito da nossa companhia aérea. Não é assim que a gente democratiza o espaço aéreo”.

 

Podemos observar que Kelleher fez uma análise de risco e retorno e pensou no impacto que o investimento em novas aeronaves para a estrutura operacional da Southwest. Todavia, o fator determinante para não seguir com este investimento foi o propósito da empresa. Trabalhar com tarifas baixas permite que muitas pessoas possam voar pela Southwest e este princípio de democratizar o espaço aéreo segue vivo até hoje. No fim das contas, a Muse Air não conseguiu se estabelecer no mercado e a Southwest é hoje uma das empresas mais lucrativas e admiradas do setor aéreo. E parte deste sucesso será tema do nosso próximo artigo.

 

Espero que estes conhecimentos tenham sido de grande ajuda para seu negócio. Caso deseje se aprofundar no cálculo da ROIC, recomendo este artigo da Infomoney. Apenas lembre-se de não ficar tão limitado aos aspectos financeiros. Sua importância é inegável, mas o foco aqui é investir no que tem maior potencial em gerar valor, tanto para o seu negócio quanto para os seus clientes.

Artigo fermentado em 19 de dezembro de 2017

Autor:

Mauro Rodrigues - Consultor em Inovação no Relacionamento com o Cliente

Idealizador do Fermento nos Negócios, auxilio empresas na tomada de decisões estratégicas, sempre buscando o maior retorno possível dentro de uma margem de risco razoável. SAIBA MAIS...

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